Textos

Setembro de 1985 
A senhora Valedia, 44 anos, após ter acionado a polícia, disse à equipe que comparecia ao local ser o corpo do esposo, e que foi encontrado junto ao jardim−de−inverno, tombado no chão. - havia uma faca cravada nas costas, do lado esquerdo, à altura do coração. 
Provocada pelos familiares da vítima, a Justiça uma semana depois, impediu que a senhora Valedia usufruísse ou administrasse os bens que lhes pertenciam. O que lhe fora assegurado, até segunda ordem, era que ela ocupasse apenas um único imóvel de propriedade do casal, devendo a manutenção ser feita com seus próprios recursos.
Com o passar dos meses, por mais que o investigador particular contratado pela senhora Valedia tivesse tentado, não chegou a identificar nenhum suspeito. De acordo com entendimento da polícia, provavelmente a contratante seria a responsável pelo crime.

Outubro de 1995
Dez anos depois, a ex−governanta do casal, senhora Nadirene, com cinquenta e dois anos de idade, esteve na delegacia onde o inquérito fora instaurado e confessou que estava disposta a fornecer detalhes que talvez elucidasse o assassinato do senhor Campilla. A confissão foi efetivada e, quatorze meses depois, foi a senhora Valedia encaminhada à Promotoria Pública. Na véspera do julgamento, a senhora Valedia teve uma conversa com seu advogado:
- O senhor não pode pular a parte constrangedora? - especulou ela preocupada.
- Entenda, a inesperada revelação feita pela senhora Nadirene poderá ser interpretada como um arranjo, criado na tentativa de inocentá−la, podendo a senhora, dessa forma, ter o direito de usufruir os bens. Tudo o que ela informou na delegacia será lido no início da audiência, mas será que os jurados estarão atentos? Portanto, irei provocá−la para que os jurados entendam o motivo que a levou a confessar.
- ... O senhor sabe que eu leciono na faculdade Oraça. 
- Encare como custo benefício. 
- Receio que os jurados fiquem irados.
- O que estará em julgamento será a morte do senhor Campilla. - garantiu o doutor Gravel.

SALA DE AUDIÊNCIA 28. 
A senhora Nadirene foi então convidada. Prestou juramento e sentou−se. O doutor Gravel se dirigiu a ela e perguntou o que teria levado a confessar, dez anos depois, suspeita de prova que poderia inocentar a senhora Valedia Campilla. 
- Permitindo−me, gostaria primeiro de falar sobre o meu estado de espírito à época da confissão. - disse ela.
- ... Sim... - consentiu o advogado da senhora Valedia.
Analisava com botões dela a situação vexatória vivida pela ex−patroa. Foram dez anos de vida privada e sem luxo, coisa com que a ex–patroa  não era acostumada. A outrora vistosa residência sofria a cada dia com o mal causado pelo abandono. Dez anos foram suficientes. Assim concluiu. A dívida que a senhora Valedia tinha com ela havia sido quitada. Sabia que o chamado de Deus era imprevisível. Portanto, não queria partir e nem muito menos queria que a ex−patroa partisse sem ter tentado provar a sua ‘possível’ inocência.
- ... A senhora trabalhou na residência dos Campilla por um bom período, não é verdade?
- Durante vinte e dois anos. Trabalhei até o dia em que o senhor Campilla foi encontrado morto. 
- A senhora encontrava−se na residência nesse dia? 
- Não, senhor.
- E qual seria a dívida que a sua ex−patroa teria com a senhora?
A depoente olhou para a ex−patroa. A senhora Valedia por sua vez tornou−se rubra. Abaixou a cabeça e cerrou os olhos.
- Das vezes que se prontificava a me servir com alguma coisa, eu sabia onde encontraria: atirada no chão, num lugar qualquer do pátio... O que eu era, conforme as palavras dela: “nega, sebosa e fedorenta, cabelo de arame... Olhos de sapo.” Às vezes acordava na madrugada com ela batendo com a palma da mão na porta do meu quarto e depois seguia gargalhando... Baratas mortas sobre a minha cama? Quantas vezes... Nas quintas−feiras, dias que não ia à faculdade Oraça, onde lecionava, enchia a cara de uísque e me convidava para deitar com ela.
A senhora Valedia permanecia cabisbaixa, com os olhos fechados. Havia considerável público presente.
- O senhor Campilla tinha conhecimento desses fatos afirmados pela senhora?
- Não, senhor.
- Essa seria a dívida que a senhora Valedia teria com a senhora?
- Sim.
- E qual a razão de permanecer no emprego, mesmo assim?
- O salário era compensador. Os meus pais trabalharam para os pais do senhor Campilla. 
- Durante os vinte e dois anos que a senhora trabalhou para essa família, presenciou alguma desavença entre o casal?
- Mantinham um relacionamento silencioso. Nunca presenciei troca de afeto, nem muito menos desavença. 
- Bem, a senhora confessou na delegacia ter, certa feita, presenciado o senhor Campilla apoiar na parede uma vareta de uns trinta centímetros de comprimento e tentar comprimi−la com as costas. 
- Sim. Por duas ou três vezes. Em certo dia, presenciei essa mesma cena, só que usando uma faca.
- ... Em certo dia, a senhora presenciou o senhor Campilla tentando comprimir com as costas uma faca. Ou seja: a ponta da lâmina nas costas e o cabo apoiado na parede? 
- Sim.
- Confirma isso?
- Confirmo.
- O senhor Campilla costumava receber visitas?
- O irmão, sócio da empresa. Passavam horas conversando.
- Davam-se bem? 
- Aparentava. 
O advogado expressou satisfação e lhe perguntou se desejava acrescentar mais alguma coisa. 
- Não, senhor.
O promotor voltando a ser questionado pelo juiz se desejava a palavra, negou. Então o advogado da senhora Valedia disse que todas aquelas suas palavras eram respaldadas com provas documentais. Disse, ainda, que, no dia da morte do senhor Campilla, a governanta, senhora Nadirene, cumprindo rotina, encontrava−se a trabalho na casa de praia da família. O casal não tinha filhos. E, ao longo das investigações, ninguém havia escapado da aproximação sutil da polícia. Nem o jardineiro, nem o profissional que cuidava da piscina, nem as arrumadeiras, nem os entregadores de encomendas, nem parentes, nem vizinhos, nem possíveis “paqueras” ou amantes. Nem mesmo o irmão sócio. Enfim. Ninguém havia escapado da aproximação sutil da polícia. O senhor Campilla fora encontrado morto, deitado, com uma faca de 23 centímetros de lâmina cravada, nas costas, do lado do coração, sem impressões digitais. Daí a dificuldade de a polícia incriminar a senhora Valedia ou quem fosse. A faca fora encontrada com o cabo molhado e, a dois metros de distância, havia uma toalha também molhada. As mãos do senhor Campilla também estavam molhadas. Despercebidamente molhadas! A única pessoa que se encontrava na residência, no dia da morte do senhor Campilla, era a esposa, dona Valedia. O senhor Campilla tinha como sócio o irmão que, garantidamente, era inocente. E também, garantidamente, o senhor Campilla guardava um lamentável segredo consigo: sofria de câncer, em estado avançado. 
Assim concluído, o juiz solicitou os laudos do processo e leu as partes que lhe interessava. Minutos depois chegava às mãos dele o veredicto: inocência unânime da ré. No entendimento dos jurados, o senhor Campilla havia se suicidado.
Eduardo Damasio
Enviado por Eduardo Damasio em 27/05/2017
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